sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A ESTROFE

CONCEITOS E TIPOS

Estrofe é um conjunto estruturado de versos.
Eis os principais tipos de estrofe:

Dístico. É a estrofe de dois versos, apresentando rimas emparelhadas: aa bb cc, etc. Ex.:
Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.
(Cruz e Souza)

Terceto. É a estrofe de três versos apresentando esquema variável de rima.
Na chamada terza rima italiana o esquema é:
aba, bcb, cdc, ded, etc., havendo no final da composição um verso isolado
que rima com o segundo verso do último terceto, como já vimos.

Eis um exemplo de tercetos rimados, segundo o esquema abc nas duas primeiras estrofes
e bac nas duas últimas, diferente da terza rima:

CANÇÃO
Fizeste humilde a minha vida
para que eu não errasse
os teus caminhos silenciosos

Puseste cardos em minha vida
para que eu sempre visse a Tua Face
ferida dos espinhos dolorosos

Tornaste a minha noite mais escura,
e abriste grotas pela minha estrada
por que eu tivesse a glória de vencê-la,

e meus olhos, na noite deslumbrada,
melhor sentissem a imortal frescura
e a serena vertigem das estrelas . . .
(Tasso da Silveira)

Quadra. É a estrofe popular em quatro versos que não excedem o verso de redondilha maior.

Freqüentemente, apenas dois versos aparecem rimados. Ex.:
Menina, diga a seu pai
Que se quer ser meu amigo
Ou me pague o meu dinheiro,
Ou case você comigo!
(Cancioneiro do Norte, de Rodrigues de Carvalho)

Poetas cultos rimam todos os versos, como nos mostra este exemplo de Murillo Araújo :
Sereia, andei te esperando ...
Mas que erro grande esperar!
Sabes que andei te esperando
triste até desesperar?

Se me levasses sonhando
longe? ... no abismo do mar?!
Se me levasses sonhando
quem dera abismos e mar!
Quarteto. É a estrofe erudita de quatro versos, que podem apresentar de oito a doze sílabas, ou mais.

Em geral, as rimas dos quartetos são alternadas: abab ou interpoladas e emparelhadas: abba. Ex.:

CANTO
Caprichos de lilás, febres esguias,
Enlevos de ópio - Íris - abandono
Saudades de luar, timbre de Outono,
Cristal de essências langues, fugidias ...

O pajem débil das ternuras de cetim,
O friorento das carícias magoadas;
O príncipe das Ilhas transtornadas...
Senhor feudal das Tôrres de marfim...
(Mário de Sá Carneiro)

Quintilha. É a estrofe de cinco versos apresentando esquema de rima variável:
abaad; ababa; abbab; abbba.

Alguns autores propõem, a exemplo da distinção entre quadra e quarteto,
uma diferença entre quintilha (versos até 7 sílabas) e quinteto (versos de oito ou mais sílabas). Ex.:

Belo! E arrimada ao cabo da sombrinha,
Com teu chapéu de palha, desabado,
Tu continuas na azinhaga: ao lado
Verdeja, vicejante, a nossa vinha.
(Cesário Verde)

Sextilha. É a estrofe de seis versos apresentando esquema de rima variável.

Alguns autores fazem diferença entre sextilha (versos até sete sílabas) e sex-teto
(versos de oito ou mais sílabas). Ex.:

Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada
do outono, quando a terra, em sede requeimada,
Bebera longamente as águas da estação,
- Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata,
À frente dos peões filhos da rude mata,
Fernão Dias Pais Leme entrou pelo sertão.
(Olavo Bilac)

Estrofe de sete versos. Apresenta esquema de rima variável e é de uso pouco freqüente.

Não tem nome especial, embora alguns autores proponham: sétima, setilha ou hepteto. Ex.:

Meses depois, as gazetas
Darão críticas completas,
Indecentes e patetas,
Da minha última obra
E eu- p'ra cama outra vez,
Curtindo febre e revés,
Tocado de Estrela e Cobra
(Mário de Sá Carneiro)
Esquema de rima: aaabccb.

Oitava. É a estrofe de oito versos, podendo ser heróica ou lírica.

No primeiro caso, ajusta-se ao poema épico, em versos decassílabos,
apresentando o seguinte esquema de rima: abababcc, como nos Lusíadas.

No segundo caso, com esquema variável de rima,
não raro o que se tem é a justaposição de duas quadras ou quartetos. Exemplos:

Oitava Heróica:
Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito,
(Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela:
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
(Camões)

Oitava Lírica:
A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista,
Foi um deslumbramento,
Que me endoideceu a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
(Camilo Pessanha)

Esquema de rima: aaabaaab. Rimas contínuas nos três primeiros versos de cada quadra justaposta.

E rima final no quarto verso de ambas as quadras justapostas.

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Estrofe de nove versos. Apresenta esquema variável de rima e não é de uso muito generalizado.

Não tem nome especial, embora alguns autores lhe proponham a denominação de nona Ex.:

O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar;

A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, "Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?"
E o homem do leme disse, tremendo,
"El-Rei D. João Segundo!"
(Fernando Pessoa)

Esquema de rima: aabaacdcd. Há um verso solto, pois não rima com nenhum outro.
Décima. É a estrofe de dez versos apresentando esquema de rima variável.
Em geral, a décima resulta da justaposição de uma quadra (ou quarteto) a uma sextilha,
ou da justaposição de duas quintilhas. Ex.:

Talhado para as grandezas,
Para crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
- Estatuário de colossos -
Cansado doutros esboços,
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina ...
"Tira a América de lá."
(Castro Alves)

Esquema de rima: abcbdeffe. Há dois versos soltos ou sem rima correspondente: a e c.

Sem nome especial são as estrofes de mais de dez versos,
como nos mostra este exemplo de Tasso de Oliveira , apresentando quatorze versos:

CANÇÃO
Em sala antiga deu hora
um pêndulo familiar.
Som tão morto que lá fora
ninguém o pôde escutar:
nem uma alma recolhida,
nem a rua adormecida,
nem a cidade vencida
de tanto sofrer e amar.
No entanto, a hora assim perdida
que em surda voz, ainda agora,
esse pêndulo bateu
foi uma hora, uma santa hora
da vida que Deus nos deu.
Ah! foi uma hora da Vida!

Esquema de rima: ababcccbcadadc.

Estrofes isométricas e heterométricas

Convém notar ainda que se dá a denominação de estrofe simples ou isométrica
à estrofe que se forma de versos de igual medida. Ex.:

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto o poento caminheiro;
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como um desterro de minha alma errante,
Onde fogo insensato a consumia
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade - é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz - e escrevam nela:
Foi poeta, sonhou e amou na vida...
(Álvares de Azevedo)

No poema acima, todas as estrofes são isométricas,
pois os quartetos se formam com versos de igual medida (versos regulares).

Estrofe composta ou heterométrica é a que se forma de versos desiguais, mas combinados.

Eis as combinações mais freqüentes:

E, longe, luz mais pura
Que a extinta luz daquele dia morto
Xenócrates procura:
- Imortal claridade,
Que é proteção e amor, vida e conforto,
Porque é a luz da verdade.
(Olavo Bilac)

Hendecassílabo e pentassilabo:

E a velha Carlota, revendo-me agora
Tão pálido, diz:
Meu pobre Menino! que Nossa Senhora
Fez tão infeliz...
(Antônio Nobre)

Alexandrinos com hexassílabos:

Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! de um sol assim! Tu despenhada e fria,
Fria.! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...
(Olavo Bilac))

Heptassílabos com versos de três ou quatro sílabas:

Quis fazer uma canção
não sei porque,
que dissesse ao coração
não sei o quê;
(Guilherme de Almeida)

Versos de cinco com versos de três sílabas:

Noite de bruxedos,
Entre os arvoredos
um repuxo
de cristal, que é a vara
de um bruxo.
(Guilherme de Almeida)

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